Seminário de Pós-Graduação 2015.2 – Território, polícia, literatura.

Professores: João Camillo Penna e Paulo Roberto Tonani do Patrocínio.

Código: LEL 843                     Nível: Mestrado e Doutorado.

Horário: terça-feira, 14:00-16:30h.                    sala: H-304.

Ementa: A partir de uma definição expandida de cultura, que inclui textos literários, cinema, música, fotografia, além das diversas mídias, o presente curso tem como objetivo examinar a relação entre território e polícia. A proposta é perscrutar os momentos em que se manifesta uma quebra do domínio policial sobre o território, em que é posta em cheque as regras tradicionas da gestão de espaços da política e da representação. Para tanto, serão promovidos dois planos teóricos superpostos e complementares: o primeiro consiste no exame dos dispositivos de poder ligados ao aparato policial e na abordagem do conceito de território; um segundo segmento se dedicará a avaliar as condições de ruptura desse espaço de controle territorial. No primeiro segmento, estudaremos a noção de território, fazendo a arqueologia do conceito a partir das propostas teóricas de Milton Santos, Rogerio Haesbaert e Arjun Appadurai; ainda neste segmento investigaremos a construção da ideia de polícia enquanto um conjunto dos meios que servem ao esplendor de todo o Estado, em diálogo com Michel Foucault. Neste ponto do curso, serão acionadas as contribuições ensaísticas e ficcionais do antropológo Luiz Eduardo Soares. Um segundo segmento partirá da análise de experimentações coletivas que tentam estabelecer um outro tipo de ocupação do território, sendo imediatamente criminalizadas. Pensamos aqui nas manifestações de junho 2013, no Brasil, e especificamente no Rio de Janeiro, nos “vândalos” black blocs, ou no Funk Proibidão, que praticamente desaparece com a instalação das UPPs, este ambivalente “experimento” estatal carioca de ocupação territorial policial. A apresentação deste horizonte teórico, será sempre acompanhada de análise de textos que representam a relação entre território e polícia.

Cronograma de aulas

1º Encontro – 03 de novembro. Apresentação do curso e do cronograma de leituras.

2º Encontro – 10 de novembro. Polícia e território. Propor uma leitura da publicação coletiva Bala perdida, na qual figuram diferentes ensaios e leituras sobre a violência policial no Brasil urbano contemporâneo. O livro pode ser uma boa entrada no tema, para dimensionar a complexa relação que pretendemos abordar no livro entre polícia e território. Trata-se uma publicação com cerca de 120 páginas, os alunos terão facilidade de encontrar e também terão facilidade de ler no intervalo de uma única semana.

Leitura principal:

KUCINSKI, Bernardo (et. al). Bala perdida: a violência policial no Brasil e os desafios para sua superação. São Paulo: Boitempo, 2015.

Blog da Boitempo Editorial, http://blogdaboitempo.com.br/dossies-tematicos/violencia-policial/

3ª Encontro – 17 de novembro. A noção de território (Haesbaert e Appadurai). No terceiro encontro examinaremos o conceito de território à luz da contribuição de Rogério Haesbaert. Por outro lado, pensaremos a noção de território num mundo globalizado, a partir de Appadurai.

Leitura principal:

HAESBAERT, R. “Dos Múltiplos Territórios à Multiterritorialidade”.

HAESBAERT, R. “Região, Diversidade Territorial e Globalização”.

HAESBAERT, R. e LIMONAD, Ester. “O Território em Tempos de Globalização”. In: Revista Etc, 2007.

APPADURAI, Arjun. “Soberania sem territorialidade: notas para uma geografia pós-nacional. Tradução de Heloisa Buarque de Hollanda. In: Novos Estudos CEBRAP. Nº 49, novembro de 1997.

4º Encontro – 24 de novembro. Pobreza e território. Nesse encontro abordaremos a contribuição de Loïc Wacquant. Os condenados da cidade seria o que melhor se adequa à proposta do curso. Outros livros, que podem interessar também: Punir os pobres e As prisões da miséria.

Leitura principal:

WACQUANT, Loïc. Os condenados da cidade. Rio de Janeiro: Revan; FASE, 2001.

5º Encontro – 01 de dezembro. Polícia. Tratar-se-á aqui de expor a história do conceito de polícia. Para isso nos apoiaremos em um texto clássico de Michel Foucault, “Omnes et singulatim”.

Leitura principal:

FOUCAULT, Michel. “Omnes et singulatim”. Trad. Heloísa Jahn. In: Novos Estudos Cebrap no. 26, março de 1990.

6º Encontro – 08 de dezembro. Território e Literatura I. Tomando como base os desdobramentos da noção de território e de polícia, partiremos para o exame de determinados textos literários. Os textos de referência no Brasil, que inauguraram a temática territorial na literatura, são Cidade de Deus, de Paulo Lins e Capão pecado de Ferréz. São livros já muito lidos, mas vale a pena ainda revê-los a partir do pano de fundo teórico que esboçamos.

Leitura principal:

FERRÉZ. Capão Pecado. São Paulo: Labortexto Editorial, 2000.

LINS, Paulo. Cidade de deus. São Paulo: Companhia das Letras, 1997.

7o Encontro. 15 de Dezembro. Território e literatura II. Abordaremos nesse encontro o romance da Raquel Oliveira, A número 1. Raquel foi namorada de um chefe do tráfico da Rocinha, do Naldo, responsável pela conhecida entrevista que ele concedeu ao JB.

Leitura principal:

OLIVEIRA, Raquel. A número 1. Rio de Janeiro: Leya, 2015.

Recesso de natal.

8o Encontro. 12 de janeiro . Território e literatura III. Podemos investigar a tematização desse processo em outra perspectiva, visitando um olhar de fora, para isso propomos a leitura de parte da obra do Rubens Figueiredo. Passageiro do fim do dia narra de forma ficcional, na perspectiva da personagem Rosane, a transformação do conjunto habitacional Tirol em um território conflagrado pela presença de grupos varejistas de drogas que entra em conflito com o grupo de uma localidade vizinha, a Várzea. É possível também visitar mais dois contos, O nome que faltava e A escola da noite, que representa traços do cotidiano de um território marginal.

Leitura principal:

FIGUEIREDO, Rubens. Passageiro do fim do dia. Companhia das Letras, 2010.

9o encontro. 19 de janeiro. Território e literatura IV. Para o nono encontro nos parece interessante atravessar a fronteira territorial brasileira e abordar um romance argentino, La 31, em torno da “villa” 31, situada em Buenos Aires.

Leitura principal:

MAGNUS, Ariel. La 31 (una novela precaria). Buenos Aires: Interzona. 2012.

10o encontro. 26 de janeiro. Território e literatura V. Propomos aqui um estudo comparativo entre La 31 e o romance Texaco, de Patrick Chamoiseau, como exemplo de romance pós-moderno, estruturado a partir da voz de uma representante da favela, como romance-testemunho.

Leitura principal:

CHAMOISEAU, Patrick. Texaco. S. Paulo: Companhia das Letras, 1993.

11o encontro. 2 de fevereiro. O “caso” Luiz Eduardo Soares I. O professor de ciência política, escritor, romancista, teórico da polícia e da segurança pública, que desempenhou diversos cargos executivos na área de segurança, Luiz Eduardo Soares, é uma figura compósita de grande complexidade. Tentaremos, em duas aulas, abordar a relação complementar entre sua escrita de politólogo de denúncia e análise e a de ficcionista.

Leitura principal:

SOARES, Luiz Eduardo. “O inominável, nosso medo”. In: Violência e Política no Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: Relume Dumará, 1996.

_________________. Rio de Janeiro. Histórias de vida e morte. São Paulo: Companhia das Letras, 2015.

Carnaval.

12o encontro. 16 de fevereiro. O “caso” Luiz Eduardo Soares II. Dando seguimento à discussão sobre Luiz Eduardo Soares, discutiremos uma de suas obras de “ficção”, escrita em parceria com André Batista e Rodrigo Pimentel, Elite da tropa.

Leitura principal:

SOARES, Luiz Eduardo; BATISTA, André e PIMENTEL, Rodrigo. Elite da tropa. Rio de Janeiro: Objetiva, 2006.

13o encontro. 23 de fevereiro. Acontecimento e política I. As manifestações de rua de 2013 que tiveram lugar em diversas cidades do Brasil, na esteira de manifestações semelhantes ocorridas em diversos lugares do mundo, disparadas pela chamada Primavera Árabe (de 2010), foram o grande acontecimento na política brasileira. Nele se demonstrou de forma tangível a contraposição celebrizada por Rancière entre polícia e política, esta última entendida como acontecimento raro, ensejando uma nova partilha da “parte dos sem parcela”. O que ali aconteceu mostrava um tipo de agência política coletiva desafiliada dos mecanismos conhecidos de representação e dos partidos políticos, cuja força que inutilmente se tentou carrear para os partidos de oposição ao governo. O que se expunha ali era uma oposição manifesta à própria forma de governar, mais do que a um governo específico. Analisaremos neste segmento do curso dois documentários: Ninguém é Black bloc de Rômulo Cyriaco, e É tudo mentira do coletivo Vinegar Syndrome.

Leitura principal:

RANCIÈRE, Jacques. O desentendimento. Política e filosofia. Trad. Ângela Leite Lopes. São Paulo: Ed. 34, 1996.

Vinegar Syndrome. É tudo mentira.

14o encontro. 1o de março. Acontecimento e política II. Discussão do documentário Ninguém é Black bloc de Rômulo Cyriaco.

Leitura principal:

DUPIS-DÉRI, Francis. Black Blocs. São Paulo: Veneta, 2014.

Cyriaco, Rômulo. Ninguém é Black bloc.

Bibliografia

APPADURAI, Arjun. “Soberania sem territorialidade“. Tradução de Heloisa Buarque de Hollanda. In: Novos Estudos CEBRAP. Nº 49, novembro de 1997.

BEATO, Claudio. Crime e cidade. Belo Horizonte: Ed. UFMG, 2012.

Boitempo editorial. Blog: http://blogdaboitempo.com.br/dossies-tematicos/violencia-policial/.

BUTLER, Judith. “Sometimiento, resistencia, resignificación”. In: Mecanismos psíquicos del poder Teorías sobre la sujeción. Trad. Jacqueline Cruz. Madrid: Ediciones Cátedra, 2001.

CALDEIRA, Teresa Pires do Rio. Cidade de muros. Crime, segurança e cidade em São Paulo. São Paulo: Editora 34, 2000.

CHAMOISEAU, Patrick. Texaco. S. Paulo: Companhia das Letras, 1993.

DUPIS-DÉRI, Francis. Black Blocs. São Paulo: Veneta, 2014.

FAULHABER, Lucas e AZEVEDO, Lena. Remoções no Rio de Janeiro olímpico. Rio de Janeiro: Mórula, 2015.

FERRÉZ. Capão Pecado. São Paulo: Labortexto Editorial, 2000.

_______.(Org.). Literatura marginal: talentos da escrita periférica. Rio de Janeiro: Agir, 2005.

FIGUEIREDO, Rubens. Passageiro do fim do dia. Companhia das Letras, 2010.

FOUCAULT, Michel. A sociedade punitiva. Lição de 17 janeiro de 1973. Tradução de Andrea Bieri. (La société punitive. Ed. François Ewald. Paris: Ed. Seuil, 2013).

_______________. A sociedade punitiva. Lição de 14 março de 1973. Tradução de Andrea Bieri. (La société punitive. Ed. François Ewald. Paris: Ed. Seuil, 2013).

_______________.“Omnes et singulatim”. Trad. Heloísa Jahn. In: Novos Estudos Cebrap no. 26, março de 1990.

_______________. Segurança, Território, População. São Paulo: Martin Fontes, 2008.

_______________. Vigiar e punir. Trad. Ligia Vassallo. Petrópolis : Vozes, 1988, 6ª edição.

GLISSANT, Édouard. Introdução a uma poética da diversidade. Tradução de Enilce do Carmo Albergaria Rocha. Juiz de Fora: Editora UFJF, 2005.

HAESBAERT, R. “Dos múltiplos territórios à Multiterritorialidade“.

HAESBAERT, R. “Região, diversidade territorial e globalização“. In: GEOgraphía, ano 1, no. 1, 1999.

HAESBAERT, R. e LIMONAD, Ester. “O território em tempos de globalização“. IN: Revista Etc, 2007.

HARVEY, David. Cidades Rebeldes. Do direito à cidade à revolução urbana. São Paulo: Martins Fontes, 2014.

KUCINSKI, Bernardo (et. al). Bala perdida: a violência policial no Brasil e os desafios para sua superação. São Paulo: Boitempo, 2015.

MAGNUS, Ariel. La 31 (una novela precaria). Buenos Aires: Interzona. 2012.

OLIVEIRA, Raquel. A número 1. Rio de Janeiro: Leya, 2015.

RANCIÈRE, Jacques. O Desentendimento. Política e Filosofia. Trad. Ângela Leite Lopes. São Paulo: Ed. 34, 1996.

SCHMITT, Carl. O conceito do político. Teoria do partisan. Tradução: Geraldo de Carvalho. Belo Horizonte: Del Rey, 2008.

SOARES, Luiz Eduardo. “A crise no Rio e o pastiche midiático“. (Texto publicado no blog de LES, 2010).

__________________. “Acaso e Necessidade na Ética do Crime“. In: Legalidade libertária. Rio de Janeiro: Lumen-Juris, 2006.

__________________. “Aplausos à Violência?“.

__________________.”Elite da Tropa 2 – projeto literário e intervenção política“.

__________________. “Ficção e realidade do crime organizado no Brasil. Entrevista à Ciência Hoje.” (2010).

__________________. “Escrever o Social: uma trilogia de Luiz Eduardo Soares “. Revista Z. (2007).

__________________. “Juventude e violência no Brasil contemporâneo.” (Versão para Ricardo Cesar Costa).

__________________. “O Brasil tem que acabar com as PMs.“. Entrevista à Isto é“. (2013).

__________________. “O inominável, nosso medo”. In: Violência e Política no Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: Relume Dumará, 1996.

_________________. Rio de Janeiro. Histórias de vida e morte. São Paulo: Companhia das Letras, 2015.

__________________. “Tropa de elite e elite da tropa”.

__________________; BATISTA, André e PIMENTEL, Rodrigo. Elite da tropa.Rio de Janeiro: Objetiva, 2006.

WACQUANT, Loïc. Os condenados da cidade. Trad. João Roberto Martins Filho. Rio de Janeiro: Reva, FASE, 2001.

WALTY, Ivete Lara Camargos. A rua da literatura e a literatura da rua. Belo Horizonte: Ed. UFMG, 2015.

Filmografia

Cyriaco, Rômulo. Ninguém é Black bloc.

Padilha, José. Tropa de elite I. Missão dada é missão cumprida.

Padilha, José. Tropa de elite II. O inimigo agora é outro.

Vinegar Syndrome. É tudo mentira.

Wainer, João. Junho. Documentário da Folha, 2014.

One thought on “Seminário de Pós-Graduação 2015.2 – Território, polícia, literatura.

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s